quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DOIS NOVOS ESPAÇOS EM PORTO ALEGRE REÚNEM O MELHOR DA NOVA GERAÇÃO DE ARTISTAS ...

A PRIMEIRA É A GALERIA FITA TAPE QUE FICA NA JOSÉ BONIFÁCIO, 485 (RUA DO BRIQUE). É UM ESPAÇO PARA A CULTURA DE RUA, O GRAFITE.... REUNINDO OS PRINCIPAIS NOMES AQUI DO RIO GRANDE DO SUL.
TRAMPO UM DOS MAIS CONHECIDOS GRAFITEIROS DO SUL MONTOU UMA SUPER EXPOSIÇÃO QUE FICOU NA GALERIA ATÉ OUTUBRO.... E TB PINTOU UM PAINEL MUITO LOUCO NAS PAREDES DA PRÓPRIA GALERIA.
O SEGUNDO ESPAÇO É O MUNDO AG PRODUTORA DE ARTE, LOCALIZADA NA RUA ALCIDES CRUZ, 398. A VISITAÇÃO PODE SER MARCADA POR TELEFONE: 3407.3006.
ESTE ESPAÇO REÚNE VÁRIOS ARTISTAS, COMO RENAN SANTOS, EDUARDO UCHOA, CAROL W, CUSCO REBEL, MATEUS GRIMM.... ENTRE OUTROS.
SÃO TELAS, TOYS, ESCULTURAS, GRAFITE, PAPEL MACHÊ, OBJETOS, MOBILIÁRIO E, TODAS AS OBRAS ESTÃO A VENDA. 
MUITO LEGAL CONFIRAM..... PARECE QUE COMEÇAM A SURGIR ESPAÇOS ALTERNATIVOS, DIFERENTES DAS GALERIAS POMPOSAS.... LOCALIZADAS NOS BAIRROS "NOBRES" DA CIDADE QUE NÃO APENAS DIFICULTAM O ACESSO, COMO TAMBÉM CONSTRANGEM A VISITAÇÃO.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

GRANDE JUREMIR


Como todo mundo, apesar das minhas ressalvas ao mercantilismo do Bom Velhinho, eu também faço os meus pedidos de Natal. Só que, desta vez, mandarei a minha cartinha para uma mulher. Farei meus pedidos a Dilma Rousseff. Luiz Inácio já a chamou de "mãe do PAC". Não é de duvidar que fique conhecida como "mãe dos pobres". Imagino a direita esbravejando contra o que talvez venha a rotular de "neopopulismo feminino". Estou delirando. Mas os meus pedidos são verdadeiros. Não pedirei pouco. Pensando bem, também não é muito. Pedirei coerência. Não é para rir. Sim, eu acredito em Papai Noel, em coerência de político e na vida extraterrestre. Uma vez por ano.

O que espero da Dilma? Primeiro, que abra os arquivos da ditadura militar imposta ao Brasil em 1964. Não quero comissão da verdade, não desejo a revogação da lei da anistia, não defendo revanche ou vingança, não quero ver sangue jorrando nem cicatrizes se abrindo. Quero pesquisar. A Argentina julgou seus ditadores. Ainda nesta semana, o general golpista Jorge Videla sentou-se no banco dos réus e assumiu seus crimes sem arrependimento. Pegou prisão perpétua pelos seus feitos militares. Esse assunto repercutiu mais na Europa do que no Brasil. Os europeus esquecem com mais dificuldade. Se Dilma sentar em cima dos arquivos da ditadura, como Luiz Inácio fez, eu me sentirei muito decepcionado e julgarei que a esquerda tem mais a esconder do que a direita.

Meu segundo pedido à presidente é que não defenda ditaduras, nem de esquerda nem de direita, e coloque os direitos humanos acima dos interesses econômicos. Cuba é uma ditadura de esquerda. O Irã é uma ditadura de direita. Não é possível ficar afagando quem apedreja mulheres por "crime" de adultério ou proíbe cineasta de filmar para não receber críticas. É inaceitável andar de braços dados com quem coloca homossexual na cadeia pelo "crime hediondo" de preferir pessoas do mesmo sexo. É verdade que o mundo inteiro se rende aos interesses econômicos. Os Estados Unidos brigam com o Irã, mas andam de mãozinha com a Arábia Saudita. O Brasil pode ser diferente. Peço à presidente que favoreça a desconcentração da mídia, mas não tenha a tentação de controlar conteúdos, pois isso só tem um nome: censura.

Enfim, são pedidos humildes, sinceros, sem qualquer interesse escuso. Espero que a presidente os acolha com generosidade e decida fazer feliz este cidadão comum apaixonado pela verdade, por história, por justiça, pelo Brasil. Sei que a presidente não pode e não deve entrar metendo o pé na porta, ainda mais de um palácio. Não peço que abra os arquivos da ditadura na manhã seguinte à sua posse. Pode ser dois dias depois. Brincadeirinha! Pode ser mesmo até o final de 2011. Quem esperou tanto tempo, pode aguardar mais um ano. Faço meus pedidos à presidente Dilma por não ter a quem recorrer. Como cidadão comum, sinto-me, muitas vezes, abandonado, esquecido, vilipendiado, atirado num canto feito um sapato velho. Deixarei minha cartinha no Correio (do Povo). Sei que a presidente sempre passa por lá. Se me atender, serei o guri mais feliz do mundo. Feliz Natal, presidente Dilma.

JUREMIR MACHADO DA SILVA
juremir@correiodopovo.com.br














MANIFESTAÇÃO PÚBLICA DE ORGANIZAÇÕES DE DH SOBRE ALEMÃO E VILA CRUZEIRO


Há três semanas, as favelas do Alemão e da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, se tornaram o palco de uma suposta “guerra” entre as forças do “bem” e do “mal”. A “vitória” propagada de forma irresponsável pelas autoridades – e amplificada por quase todos os grandes meios de imprensa – ignora um cenário complexo e esconde esquemas de corrupção e graves violações de direitos que estão acontecendo nas comunidades ocupadas pelas forças policiais e militares. Mais que isso, esta perspectiva rasa – que vende falsas “soluções” para os problemas de segurança pública no país – exclui do debate pontos centrais que inevitavelmente apontam para a necessidade de profundas reformas institucionais.

Desde o dia 28 de novembro, organizações da sociedade civil realizaram visitas às comunidades do Alemão e da Vila Cruzeiro, onde se depararam com uma realidade bastante diferente daquela retratada nas manchetes de jornal. Foram ouvidos relatos que denunciam crimes e abusos cometidos por equipes policiais. São casos concretos de tortura, ameaça de morte, invasão de domicílio, injúria, corrupção, roubo, extorsão e humilhação. As organizações ouviram também relatos que apontam para casos de execução não registrados, ocultação de cadáveres e desaparecimento.

Durante o processo, a sensação de insegurança e medo ficou evidente. Quase todos os moradores demonstraram temor de sofrerem represálias e exigiram repetidamente que o anonimato fosse mantido. E foi assim, de forma anônima, que os entrevistados compartilharam a visão de que toda a região ocupada está sendo “garimpada” por policiais, no que foi constantemente classificado como a “caça ao tesouro” do tráfico.

A caça ao tesouro

É um escândalo: equipes policiais de diferentes corporações, de diferentes batalhões, se revezam em busca do dinheiro, das jóias, das drogas e das armas que criminosos teriam deixado para trás na fuga; em lugar de encaminhar para a delegacia tudo o que foi apreendido, as equipes estão partilhando entre elas partes valiosas do “tesouro”. Aproveitando-se do clima de “pente fino”, agentes invadem repetidamente as casas e usam ameaças e técnicas de tortura como forma de arrancar de moradores a delação dos esconderijos do tráfico. Não bastasse isso, praticam a extorsão e o roubo de pequenas quantias e de telefones celulares, câmeras digitais e outros objetos de algum valor.

Apesar deste quadro absurdo, o governo do estado do Rio de Janeiro tenta mais uma vez esvaziar e desviar o debate, transformando um momento de crise em um momento triunfal das armas do Estado. Nem as denúncias que chegaram às páginas de jornais – como, por exemplo, as que apontam para a fuga facilitada de chefes do tráfico – foram respondidas e investigadas. Independente disso, os relatos que saem do Alemão e da Vila Cruzeiro escancaram um fato que jamais pode ser ignorado na discussão sobre segurança pública no Rio de Janeiro: as forças policiais exercem um papel central nas engrenagens do crime. Qualquer análise feita por caminhos fáceis e simplificadores é, portanto, irresponsável. E muitas vezes, sem perceber, escorregamos para estas saídas.

Direcionar a “culpa” de forma individualizada, por exemplo, e fazer a separação imaginária entre “bons” e “maus” policiais é uma das formas de se esquivar de debates estruturais. Penalizar o policial não altera em nada o cenário e não impede que as engrenagens sigam funcionando. Nosso papel, neste sentido, é avaliar os modelos políticos e as falhas do Estado que possibilitam a perversão da atividade policial. Somente a partir deste debate será possível imaginar avanços concretos.

Diante do panorama observado após a ocupação do Alemão, as organizações de direitos humanos cobram a responsabilidade dos Governos e exigem que o debate sobre a reforma das polícias seja retomado de forma objetiva. Nossa intenção aqui não é abarcar todos os muitos aspectos desta discussão, mas é fundamental indicarmos alguns aspectos que achamos essenciais.

Falta de transparência e controle externo

A falta de rigor do Estado na fiscalização da atuação de seus agentes, a falta de transparência nos dados de violência, e, principalmente, a falta de controle externo das atividades policiais são fatores que, sem dúvida, facilitam a ação criminosa de parte da polícia – especialmente em comunidades pobres, distantes dos olhos da classe média e das lentes da mídia. E os acontecimentos das últimas semanas realmente nos dão uma boa noção de como isso acontece.

Apesar dos insistentes pedidos de entidades e meios de imprensa, até hoje, não se sabe de forma precisa quantas pessoas foram mortas em operações policiais desde o dia 22. Não se sabe tampouco quem são esses mortos, de que forma aconteceu o óbito, onde estão os corpos ou, ao menos, se houve perícia, e se foi feita de modo apropriado. A dificuldade é a mesma para se conseguir acesso a dados confiáveis e objetivos sobre número de feridos e de prisões efetuadas. As ações policiais no Rio de Janeiro continuam escondidas dentro de uma caixa preta do Estado.

Na ocupação policial do Complexo do Alemão em 2007, a pressão política exercida por parte deste mesmo coletivo de organizações e movimentos viabilizou, com a participação fundamental da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, um trabalho independente de perícia que confirmou que grande parte das 19 mortes ocorridas em apenas um dia tinham sido resultado de execução sumária. Foram constatados casos com tiros à queima roupa e pelas costas, disparados de cima para baixo, em regiões vitais, como cabeça e nuca. Desta vez, não se sabe nem quem são, quantos são e onde estão os corpos dos mortos.

Para que se tenha uma ideia, em uma favela do Complexo do Alemão representantes das organizações estiveram em uma casa completamente abandonada. No domingo, dia 28, houve a execução sumária de um jovem. Duas semanas depois, a cena do homicídio permanecia do mesmo jeito, com a casa ainda revirada e, ao lado da cama, intacta, a poça de sangue do rapaz morto. Ou seja, agentes do Estado invadiram a casa, apertaram o gatilho, desceram com o corpo em um carrinho de mão, viraram as costas e lavaram as mãos. Não houve trabalho pericial no local e não se sabe de nenhuma informação oficial sobre as circunstâncias da morte. Provavelmente nunca saberemos com detalhes o que de fato aconteceu naquela casa.

“A ordem é vasculhar casa por casa…”

Por outro lado, o próprio Estado incentiva o desrespeito às leis e a violação de direitos quando informalmente instaura nas regiões ocupadas um estado de exceção. Os casos de invasão de domicílio são certamente os que mais se repetiram no Alemão e na Vila Cruzeiro. Foi o próprio coronel Mario Sérgio Duarte, comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, quem declarou publicamente que a “ordem” era “vasculhar casa por casa”, insinuando ainda que o morador que tentasse impedir a entrada dos policiais seria tratado como suspeito. Mario Sérgio não apenas suprimiu arbitrariamente o artigo V da Constituição, como deu carta-branca à livre atuação dos policiais.

Em qualquer lugar do mundo, a declaração do coronel seria frontalmente questionada. Mas a naturalidade com que a fala foi recebida por aqui reflete uma construção histórica que norteia as ações de segurança pública do estado do Rio de Janeiro e que admite a favela como território inimigo e o morador como potencial criminoso. Em comunidades pobres, o discurso da guerra abre espaço para a relativização e a supressão dos direitos do cidadão, situação impensável em áreas mais nobres da cidade. De fato, a orientação das políticas de sucessivos governos no Rio de Janeiro tem sido calcada em uma visão criminalizadora da pobreza.

Em meio a esse caldo político, as milícias formadas por agentes públicos – em especial por policiais – continuam crescendo, se organizando como máfia por dentro da estrutura do Estado e dominando cada vez mais bairros e comunidades pobres no Rio de Janeiro. No Alemão e na Vila Cruzeiro, comenta-se que parte das armas desviadas por policiais estaria sendo incorporadas ao arsenal destes grupos. Especialistas avaliam com bastante preocupação a forma como o crime está se reorganizando no estado.

Mas isto continua tendo importância secundária na pauta dos Governos. De olhos fechados para os problemas estruturais do aparato estatal de segurança, seguem apostando em um modelo militarizado que não é direcionado para a desarticulação das redes do crime organizado e do tráfico de armas e que se mostra extremamente violento e ineficaz.

Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2010.
Assinam:
Justiça Global
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Conselho Regional de Psicologia – RJ
Grupo Tortura Nunca Mais – RJ
Instituto de Defensores de Direitos Humanos
Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

OLHOS AZUIS: UM DUELO NA FRONTEIRA


Dirigido por José Joffily, foi filmado no Brasil com atores americanos e brasileiros. É um thriller que mostra os  rituais desmoralizantes e degradantes pelos quais o chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK, em NY submete latino-americanos que tentam entrar nos EUA.

O atormentado Marshall (David Rasche), no seu último dia de trabalho resolve se divertir complicando a entrada no país de vários latino-americanos. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos EUA, dois poetas argentinos, uma bailarina cubana e um grupo de lutadores hondurenhos. Dois anos depois, Marshall vem ao Brasil procurar uma menina de nome Luiza. Quando ele conhece Bia (Cristina Lago), uma jornada em busca de redenção se inicia.
A direção é maravilhosa, alternando presente e passado, bem como cenas interiores ambientadas no aeroporto e, cenas de estrada no nordeste brasileiro. Ou seja, além de tratar de forma contundente da questão da "criminalização da imigração", dos dramas e histórias pessoais de cada um dos atores, também retrata a miséria e a prostituição do nordeste.
Olhos Azuis foi o grande vencedor do II Festival Paulínia de Cinema com seis prêmios, incluindo o de Melhor Filme.

Muito Boooooooooooommmmmmmmmmmmmmm, vale a pena galera.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"VEJO UMA REGRESSÃO AO MOMENTO DO "TROPA I" - DIZ LUIZ EDUARDO SOARES AO ESTADÃO



Como o senhor avalia a operação de ontem no Alemão?

O trabalho está sendo feito com prudência e teve resultados positivos. O fato de parte dos suspeitos ter fugido diluiu a resistência e evitou um banho de sangue. A chegada do Estado ao complexo abre espaço para o avanço de políticas sociais que estavam sendo preparadas. Por outro lado, pode frustrar parte da opinião pública que esperava uma batalha final, uma espécie de desembarque na Normandia. E isso porque o tom da cobertura está equivocado.

Como o sr. avalia a cobertura?

O que mais me chocou foi o tom triunfalista nas TVs e revistas. Um dia de cão como quinta-feira apareceu como um dia histórico, de vitórias e grandes conquistas. As imagens, chocantes, contradiziam esse discurso. Mostravam as polícias entrando na Vila Cruzeiro e completavam: "Ninguém foi preso". A polícia não existe no Rio e tem sido parceira e sócia do crime. Não fosse esse apoio, o tráfico não teria alcançado o patamar atual. A banda podre é uma orquestra. É urgente reformá-la.

O sr. acha que existe um efeito pós-Tropa de Elite na forma como as pessoas estão assistindo a essas cenas?

Sinto uma regressão ao Tropa de Elite 1. O filme que agora está sendo projetado na cabeça da população é o primeiro. Era o momento de confronto entre polícia e tráfico, com o protagonismo do Bope e toda a polaridade entre bem e mal. Já o Tropa 2 é mais amargo, difícil de digerir porque traz questões mais complexas, mostra que o verdadeiro problema é outro.

Parece estranho ver o oficial que inspirou o Capitão Nascimento, Rodrigo Pimentel, também seu parceiro nos livros, comentando as ações do Bope diariamente. Como o senhor vê o desempenho dele?

O Pimentel, quando era policial, teve uma trajetória lúcida, crítica, e sempre se preocupou em refletir sobre a polícia. Por ser crítico e eloquente, acabou tendo a carreira trincada, foi preso e punido, situação que o conduziu a outro caminho na vida civil. Mas é natural que ele tenha o coração dividido porque tem amigos no Bope e há algo do caveira que continua. Afinal, ele passou por todos aqueles ritos de passagem. De um lado, há o espírito crítico; de outro, a identificação com sua própria trajetória. Isso pode contaminar as opiniões dele. Mas muito menos que os limites que a própria emissora estabelece por meio de sua linha editorial.

As questões essenciais estão passando ao largo?

Mais que passar ao largo, está havendo uma inversão das prioridades. Nós, em geral, pensamos pelo filtro do bem e do mal, do maniqueísmo mais simples, os mocinhos como oponentes dos bandidos, que seriam os maus. De um lado os policiais, de outro os traficantes. Ocorre que, no dia a dia, ao longo desse processo, essa distinção não existe. O tráfico tem essa dimensão por causa do apoio da polícia, que domina comunidades por meio das milícias.

Luiz Eduardo Soares - Antropólogo, ex-secretário Nacional de Segurança, coautor dos livros Cabeça de Porco, Espírito Santo e Elite da Tropa 1 e 2, base para os filmes da série "Tropa"







sexta-feira, 26 de novembro de 2010

LUIZ EDUARDO SOARES A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei as aspas que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, especialistas, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos arregos celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

Claro. Mais uma vez.

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o espírito cooperativo, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa Mutirões pela Paz, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com p minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los.

Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.

Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Luiz Eduardo Soares é professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Tem pós-doutorado em Filosofia Política e foi secretário nacional de Segurança Pública (2003). É autor, entre outros livros, de Elite da tropa, com André Batista e Rodrigo Pimentel (Objetiva, 2006).

Confira o blog luizeduardosoares.blogspot.com/

Autor: Luiz Eduardo Soares

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PRESÍDIOS, CAOS, DROGAS E REBELIÕES

Até 80% dos presos fumam crack

Luciano Losekann, coordenador do Conselho Nacional de Justiça
Felipe Recondo / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

As duas rebeliões em presídios do Maranhão e do Amazonas, com 21 mortos, expuseram (mais uma vez) a real situação do sistema carcerário brasileiro. O diagnóstico que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) começou a fazer em 2008 e confirmou em praticamente todos os Estados é: superlotação, más condições, demora nos julgamentos, tráfico de drogas e violência dentro dos presídios. O que aconteceu nessas duas cadeias nesta semana não é exceção. Ao contrário, todo o sistema carcerário corre o mesmo risco. E as ameaças aumentam com o tráfico de drogas em profusão, em especial crack, nos presídios, afirma ao Estado o coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do CNJ, Luciano Losekann.

O que aconteceu no presídio de Pedrinhas (MA) é caso isolado?

Isso, infelizmente, tem se tornado regra. O problema da superlotação causa a ausência de um tratamento penal. O preso é simplesmente jogado no estabelecimento sem nenhuma atividade, sem tratamento psicológico ou psiquiátrico, sem qualquer tipo de trabalho.

E o que isso provoca?

Uma decorrência disso é que o tráfico de drogas está em profusão também dentro do sistema carcerário. Aquela noção de que o sujeito ficará isolado não é verdade. O traficante continua sua atividade dentro do presídio, às vezes com o beneplácito do Estado. (...) Isso se associa também à prática de tortura. O sujeito privado de liberdade, sendo torturado, sendo cooptado pelo tráfico, traficando lá dentro e sendo aliciado pelo crime organizado dentro do estabelecimento penal cria esse tipo de caldo de cultura para essas rebeliões.

Elas têm razão de ser. É isso?

Infelizmente, por vezes, sim. A rebelião resulta da desconformidade do preso com esse tipo de situação, que é realmente insuportável. É só nos colocarmos no lugar no apenado. Imagine você privado de liberdade, sendo cooptado e tendo de se submeter a isso aí.

Rebeliões como de Pedrinhas podem repetir-se?

Rebeliões podem repetir-se pela situação de negligência e descaso que vemos por parte dos Executivos estaduais em relação ao sistema penitenciário.

Por que os governos estaduais não investem no sistema?

A grande preocupação hoje das Secretarias de Segurança dos Estados é investir nas Polícias Civil e Militar. Mas esquecem a ponta do sistema de segurança pública que é o sistema penitenciário. Hoje, o sistema penitenciário é produtor de criminalidade. E sinceramente não vejo luz no fim do túnel enquanto a sociedade brasileira não debater seriamente seu sistema prisional. Estamos caminhando a passos largos para uma política de encarceramento adotada pelos Estados Unidos há 30 anos e não vamos ter presídios suficientes para toda a população carcerária. (...) Ou vamos intervir de forma muito clara e forte sobre o que queremos sobre política de segurança nessa área ou estamos fadados ao insucesso. Todas as políticas até agora não estão dando certo.

Por exemplo?

A política nacional antidrogas é um fracasso. Hoje, os filhos da classe média passaram a cumprir pena no nosso sistema carcerário. Eles começam a se viciar em crack e a cometer delitos leves que deságuam no roubo. São filhos de professores, psiquiatras, advogados, médicos. E a sociedade parece não estar preocupada com isso. Um problema que é de saúde pública acabou sendo judicializado.

Há uma mudança?

Não sei se posso falar que é positivo, mas a classe média, que nunca se preocupou com o sistema penitenciário, porque era coisa para pobre e marginal, começa a ser afetada. Essas famílias passaram a fazer um périplo pelas Varas de Execução Penal para falar com os juízes, porque começaram a se dar conta de que os filhos podem ir para esse sistema que não recupera ninguém.

E o Judiciário?

Os juízes estão impotentes para lidar com o tráfico. Não é apenas fora do sistema, dentro dos presídios é um caos. Hoje não temos como tratar essas pessoas lá dentro. Seguramente, de 50% a 80% da população carcerária, variando conforme o Estado, é viciada em crack, que circula livremente nas celas.

A prisão agrava esse vício?

É um erro se imaginar que ao prender o viciado o problema estará resolvido. Ao contrário, o problema será aumentado. (...) Temos uma bomba-relógio armada e pronta para estourar.

A política antidrogas não existe dentro do presídio?

Se a política nacional antidrogas fora do sistema é ruim, dentro dos presídios é duas vezes pior. Não existe tratamento nenhum. Temos uma lei que trata o usuário como problema de saúde pública, o que acho correto. Mas o problema de saúde pública foi transferido para a área de segurança pública, caindo na cloaca do sistema de justiça social que é o Poder Judiciário. Hoje temos dados de situações escandalosas. Pessoas que nunca tiveram o problema do vício passaram a se viciar em crack.

O que isso provoca?

Mais criminalidade. Porque esse sujeito vai procurar mais droga quando sair do sistema. O sistema é tão perverso que a família do preso hoje é refém do tráfico de drogas. Os familiares têm de levar celulares, facas. E quem não se submete a isso tem a família ameaçada ou é torturado dentro do presídio.

O comércio de drogas é volumoso dentro dos presídios?

Estima-se que no presídio central de Porto Alegre circulam por mês R$ 40 mil somente com tráfico de drogas. Isso é uma estimativa do que se trafica só ali dentro. Um fator preocupante que permite isso é o comprometimento de agentes penitenciários com o tráfico de drogas e armas.

Fonte: O Estado de São Paulo - 17/11/2010 - Notícias - São Paulo
Enviado por Ada Julieta Freire Calegaro - a Néca






terça-feira, 16 de novembro de 2010

D2 EM "NUMA CIDADE MUITO LONGE" SINTETIZA O DRAMA INDISSOCIÁVEL QUE ENVOLVE POLICIA E DELINQÜÊNCIA

Marcelo D2

Numa Cidade Muito Longe Daqui
É isso aí D2...o momento é de caos
A população tá bolada, muito bolada


Eu também tô bolado parceiro...

Numa cidade muito longe
Muito longe daqui
Que tem problemas que parecem
Os problemas daqui
Que tem favelas que parecem


As favelas daqui


Existem homens maus
Sem alma e sem coração
Existem homens da lei
Com determinação
Mas o momento é de caos
Porque a população
Na brincadeira sinistra
De polícia e ladrão


Não sabe ao certo quem é
Quem é herói ou vilão
Não sabe ao certo quem vai
Quem vem na contramão


É.. não sabe ao certo quem é


Quem é herói ou vilão
Não sabe ao certo quem vai
Quem vem na contramão


Porque tem homem mal
Que vira homem bom
Porque tem homem mal
Que vira homem bom


Quando ele compra o remédio
Quando ele banca o feijão
Quando ele tira pra dar
Quando ele dá proteção


Porque tem homem da lei
Que vira homem mal
Porque tem homem da lei
Que vira homem mal


Quando ele vem pra atirar
Quando ele caga no pau
Quando ele vem pra salvar
E sai matando geral


É parceiro..


E aí é que a chapa esquenta
É nessa hora que a gente vê quem é fiel
Mas tanto lá como cá
Ladrão que rouba ladrão


Não tem acerto ou pedido
Errou, errou...


Errou, não tem perdão
Quem fala muito é X-9
E desses a gente tem de montão
Mas o X do problema


Está na corrupção
Um dia, o bicho pegou
O coro comeu
Polícia e bandido bateram de frente,


E aí meu cumpadre


Aí tu sabe
Aí foi chapa quente, chapa quente...


Bateu de frente
Um bandido e um
Sub-tenente lá do batalhão
Foi tiro de lá e de cá


Balas perdidas no ar
Até que o silêncio gritou
Dois corpos no chão, que azar
Feridos na mesma ambulância


Uma dor de matar


Mesmo mantendo a distância
Não deu pra calar
Polícia e bandido trocaram farpas
Farpas que pareciam balas


E o bandido falou:


Você levou tanto dinheiro meu
Agora vem querendo me prender
E eu te avisei você não se escondeu
Deu no que deu


E a gente tá aqui
Pedindo a Deus pro corpo resistir


Será que ele tá afim de ouvir?
Você tem tanta basuca,
Pistola, fuzil e granada
Me diz pra que tu


Tem tanta munição?


É que além de vocês
Nós ainda enfrenta
Um outro comando, outra facção
Que só tem alemão sanguinário


Um bando de otário
Marrento, querendo mandar
Por isso que eu tô bolado assim
Eu também tô bolado sim


É que o judiciário tá todo comprado
E o legislativo tá financiado
E o pobre operário
Que joga seu voto no lixo


Não sei se por raiva
Ou só por capricho


Coloca a culpa de tudo
Nos homens do camburão
Eles colocam a culpa de tudo
Na população


{E o bandido...}
E se eu morrer vem outro em meu lugar
{Polícia...}
E se eu morrer vão me condecorar


E se eu morrer será que vão chorar?
E se eu morrer será que vão lembrar?
E se eu morrer... {já era}
E se eu morrer
E se eu morrer... {foi!}
E se eu morrer


Chega de ser sub-julgado
Sub-traído, sub-bandido de um sub-lugar
Sub-tenente de um sub-país,
Sub-infeliz, sub-infeliz.....


LaiálaiálaiálaiálaiáLaiálaiá
Sub-julgado, sub-traído,
Sub-bandido de um sub-lugar,
Sub-tenente de um sub-país,
Sub-infeliz...


Mas essa história
Eu volto a repetir
Aconteceu numa cidade
Muito longe daqui
Numa cidade muito longe

Muito longe daqui
Que tem favelas que parecem
As favelas daqui
Que tem problemas que parecem
Os problemas daqui


Daqui


Daqui


Daqui


É isso aí Sapucahy..


Polícia ou bandido?


Vai saber, né?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

COW PARADE - UM SUCESSO DE PÚBLICO


IMPRESSIONANTE O SUCESSO DAS VAQUINHAS. EM TODOS OS LUGARES DA CIDADE ENCONTRAMOS PESSOAS, AS MAIS DIFERENTES. CRIANÇAS, VELHOS, JOVENS E, MELHOR, MUITAS DELAS QUE PROVAVELMENTE JAMAIS VISITARAM UM MUSEU, CONSTRANGIDAS COM A SUNTUOSIDADE DESTES LOCAIS, ESTÃO AGORA CURTINDO AS VAQUINHAS.
A COW PARADE ANDOU PELO MUNDO E, PENSO QUE O SUCESSO TEM MUITO A VER COM O DESEJO DE UM BREVE RETORNO A ALGUM "TEMPO DA DELICADEZA".   







segunda-feira, 25 de outubro de 2010

EM QUE PESE EU NÃO SEJA APOIADORA DA MARINA, DISPONIBILIZO O MANIFESTO ENVIADO PELO MARCOS ROLIM DE ALGUNS APOIADORES QUE AGORA APOIAM DILMA


MARINEIROS COM DILMA

Estivemos com Marina Silva no primeiro turno, porque buscamos uma alternativa política para o Brasil capaz de afirmar uma conduta pública marcada pela ética na política, em favor de uma política econômica que supere definitivamente a miséria e a concentração de renda e que redirecione o próprio modelo social com base na sustentabilidade. Nos orgulhamos de uma campanha que ofereceu uma contribuição efetiva ao País e que, mesmo com um tempo mínimo de propaganda eleitoral no rádio e na TV, conseguiu enfrentar as máquinas eleitorais montadas com o apoio do Estado, dos partidos tradicionais e do grande capital.

A votação recebida por Marina Silva expressa, basicamente, um claro sinal de que parcelas expressivas da população não toleram mais o jogo de cena, as alianças sem programa, os acordos que visam apenas a repartição do poder, a corrupção endêmica que abala as instituições, o oportunismo eleitoral e a demagogia que amesquinham a própria política. Os quase 20 milhões de votos que alcançamos sinalizam, ainda, que o Brasil precisa de uma agenda socioambiental séria e que este tema, antes circunscrito a pequenos grupos de ativistas ambientais e à intelectualidade, já possui apelo popular entre nós.

Por conta de tudo aquilo que a candidatura de Marina Silva representou, vivemos a generosa experiência da militância de centenas de milhares de apoiadores em uma campanha que nos ofereceu de volta o espaço da paixão pelas ideias, ao invés da promessa de cargos ou de qualquer expectativa de benefício pessoal. Talvez por conta disso, enfrentamos o sectarismo de muitos que se julgam o “sal da terra” e mesmo Marina – que jamais agrediu ou desrespeitou seus adversários – foi tratada primeiro com desprezo, depois com a costumeira intolerância que acompanha a trajetória da antiga esquerda como uma sombra.

No próximo dia 31, entretanto, esta antiga esquerda se defronta nas urnas com a direita de sempre. Melhor seria para o Brasil que ambas as posições tivessem avançado em seus pressupostos e firmado compromissos mais nítidos em torno de programas de governo. Como se sabe, este não foi o resultado do processo eleitoral. Pelo contrário, somos testemunhas de uma radicalização da disputa, marcada por acusações, boatos e calúnias. A candidatura de José Serra, neste particular, tem se mostrado insuperável e é repugnante que tenha transformado o preconceito em seu principal aliado.

Ao mesmo tempo, é preciso afirmar um caminho que aponte para um futuro de mais inclusão social e de maior sensibilidade com a realidade dos milhões de brasileiros que seguem à margem da própria cidadania. Entendemos que um eventual governo da coligação PSDB-DEM afastaria o Brasil destes grandes desafios, privilegiando os compromissos do “Estado Mínimo” e o discurso repressivo do tipo “Lei e Ordem”. Por isso, a opção representada por Dilma nos parece a mais adequada para impedir um retrocesso histórico cuja conta será paga pelos mais pobres. No mais, a resposta oferecida por Dilma ao documento enviado por Marina às duas candidaturas que disputam o segundo turno foi a que mais se aproximou das nossas propostas, o que nutre expectativas de que Dilma poderá incorporar em seu governo vários dos compromissos da agenda socioambiental que defendemos.

Com base nesta avaliação, conclamamos todos os que apoiaram Marina a uma participação ativa nesta reta final da campanha em favor da candidata Dilma Rousseff.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

NUNCA PENSEI QUE TERIA DE RECORRER AO DELFIM NETO PARA DEBATER OS PROJETOS QUE ESTÃO EM JOGO NA DISPUTA ELEITORAL, TENTANDO ROMPER COM A BAIXARIA, OU MELHOR, COM A CRUZADA MORALISTA

SIMILITUDES


Qualquer semelhança entre a agressão da mídia aos programas de Lula e as reações ao New Deal, nos anos 30, não é só coincidência

Em abril de 2008, escrevi um comentário comparando o PAC e o Fome Zero do governo Lula aos Pogramas de obras públicas e de combate ao desemprego abrigados sob o guarda-chuva do New Deal de F.D. Roosevelt, o presidente que conseguiu tirar a economia americana da Grande Depressão produzida a partir da quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929. Três quartos de século separam essas experiências: na primeira metade da década 1930-1940, os Estados Unidos e o mundo mergulharam numa crise sem precedentes.

Quando Roosevelt tomou posse, em 1933, para seu primeiro mandato, o PIB americano tinha sido reduzido a praticamente a metade (56,4 bilhões de dólares) do que era em 1929 (103 bilhões de dólares).

Apesar da tragédia do desemprego, que chegava a 30% da força de trabalho, os EUA eram uma nação próspera. Havia muita riqueza e uma boa parte da sociedade afluente aceitava o desemprego como contingência natural numa economia de mercado. A melhor coisa que os governos deviam fazer era ficar fora disso.

Roosevelt surpreendeu, já no discurso de posse, anunciando o fim da era da indiferença: “Temos 15 milhões de sujeitos passando fome e nós vamos dar de comer a eles. O governo entende que é sua obrigação providenciar trabalho para que eles mesmos voltem a sustentar suas famílias”.

Para escândalo de muitos, seu governo colocou em marcha dois enormes programas, nunca antes tentados naquele país, de amparo ao trabalho e combate à miséria, com investimentos públicos em obras, cuja principal prioridade era a absorção de mão de obra (uma espécie de PAC). O empreendimento-símbolo foi a criação da TVA (Tennessee Valley Authority), que construiu barragens para a produção de energia e gerenciou os projetos de irrigação para a produção de alimentos.

Esses programas sofreram pesado bombardeio da oposição conservadora, que, a título de defender a livre iniciativa, esconjurava a ingerência estatal no setor privado, porque interferia na oferta e procura de mão de obra, desvirtuando o funcionamento do mercado de trabalho… Um dado interessante é que os ataques da mídia republicana evitavam agredir o presidente (e seus altos níveis de popularidade), concentrando toda a fúria na figura de Harry Hopkins, principal mentor dos programas de amparo ao trabalhador e gerente das obras públicas, qualificado de “perigoso socialista”. Qualquer semelhança com agressões midiáticas recentes aos programas Fome Zero, Luz para Todos e ao PAC não é simples coincidência…

Hoje, ninguém duvida que o New Deal foi decisivo para a reconstrução da confiança dos americanos nos fundamentos do regime de economia de mercado. Suas ações ajudaram a salvar o capitalismo, na medida em que os milhões de trabalhadores que recuperaram os empregos voltaram “a acreditar na vontade e na capacidade do governo de intervir na economia para proporcionar uma igualdade mais substancial de oportunidades” (FDR numa de suas falas no rádio, Conversa ao Pé do Fogo.)

O fato é que o PIB americano cresceu durante o primeiro e segundo mandatos e, em 1940, havia recuperado o nível que perdera desde o início da grande crise, medindo 101,4 bilhões de dólares. Roosevelt completou um terceiro período presidencial e ainda foi eleito (no fim da Segunda Guerra Mundial), para um quarto mandato, mas faleceu antes de exercê-lo.

Quando Lula assumiu o primeiro mandato, em 2002, a economia brasileira não estava na situação desesperadora da americana de 1933, mas contabilizava algo como 12% de desemprego da população economicamente ativa e vinha de um período de quase 20 anos de medíocre crescimento, com a renda per capita praticamente estagnada. Seu governo pôs em prática os programas de combate à fome que prometera no prólogo de sua Carta aos Brasileiros e posteriormente o PAC, que soma o investimento público e obras privadas, com foco na recuperação da desgastada infraestrutura de transportes, da matriz energética e na indústria da habitação. Setores de grande demanda de mão de obra e de promoção do desenvolvimento.

Oito anos depois (e 15 milhões de empregos a mais), os resultados são visíveis: queda acentuada das taxas do desemprego (para menos de 7% da população economicamente ativa), crescimento da renda e dos níveis de consumo da população, recuperação da autoestima do trabalhador e uma sociedade que adquiriu condições de oferecer uma substancial melhora na distribuição de oportunidades. Isso, tendo atravessado a segunda pior crise da economia mundial dos últimos 80 anos, com o PIB crescendo em 2010 acima de 7%.

FONTE: DELFIM NETO NA CARTA CAPITAL



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

HISTÓRIA REGIONAL DA INFÂMIA - LIVRO DE JUREMIR PARA OXIGENAR UM POUCO A BAIXARIA QUE ASSOLA ESSE PERÍODO ELEITORAL

História regional da infâmia (o livro)

As sociedades precisam de mitos. Mas também precisam de História. Essa é a complexidade nossa de cada dia. Há coisas que são antagônicas e complementares. O cotidiano precisa de publicitários e de sociólogos, de escritores e de historiadores. Uns produzem mitos que funcionam como um “cimento social”. Outros, igualmente úteis, fazem a “desconstrução” dos mitos quando eles se tornam excessivos ou monolíticos. Para cada mágico, há um “Mister M”. Acabo de publicar pela L&PM um livro chamado “História regional da infâmia – o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras, ou como se produzem os imaginários”. É uma obra polêmica. A sua base, no entanto, é puramente documental (mais de 15 mil documentos pesquisados). Posso garantir que há elementos novos, sistematização de aspectos dispersos e esclarecimento do que era boato ou permanecia nebuloso.

Foram seis anos de trabalho, sendo três anos de pesquisa sistemática, auxiliado por vários pesquisadores. Fui aos Estados Unidos só para conversar com Spencer Leitman, um historiador que, sendo estrangeiro, conseguiu dar um mergulho sem muitos desvios na saga farroupilha. Faço algumas comparações provocativas. O essencial, no entanto, está em mostrar como a história foi deslizando para o mito e em como o discurso sobre a Revolução Farroupilha pode contradizer o que os documentos mostram do movimento mais emblemático da história do Rio Grande do Sul. Cada país tem o seu jeito de lidar com temas controvertidos. Nos Estados Unidos e na França, a mídia debatendo os assuntos tabus sempre que há novo pretexto. A Revolução Francesa de 1789 é reinterpretada ou revisitada praticamente de dez em dez anos. François Furet e Max Gallo estão entre seus últimos revisores.

Somos movidos pela libido da verdade e da discussão. A verdade é um horizonte fugidio. Ninguém é dono dela. Cabem muitas perguntas: quem foi indenizado pelo império ao final da revolução? Quem foi acusado de corrupção? Por que houve ruptura interna? Como pode ser realmente abolicionista uma revolução cujo “cérebro”, Domingos José de Almeida, vendeu negros no Uruguai para financiar parte do movimento (comprando fardamento, cavalos e mantimentos)? Esse é certamente um dos pontos mais candentes do meu livro. Focalizo um documento (652) da Coleção Varela, que chamo de “documento ignominioso” ou “documento infame”. Almeida explica como procedeu e reclama o devido ressarcimento. Cobra uma parte da conta:

“Prevendo os resultados da retirada de 4 de janeiro de 1837 se nossos companheiros não fossem de pronto socorridos de cavalgadura, roupa, fumo e erva, nesse mesmo dia despachei 35 escravos, que de minha propriedade tinha já no departamento de Cerro Largo, com Vicente José Pinto para serem vendidos em Montevidéu e seu produto aplicar a esse importante fim”. Diz mais: “Tais escravos foram com efeito vendidos” e as quantias “fielmente aplicadas na manutenção da guerra”. Vale lembrar que o lema farroupilha era “liberdade, igualdade e humanidade”.

TEXTO: JUREMIR MACHADO